terça-feira, 23 de março de 2010

Resumo do resto do Caminho

Decidi contar aqui o resto do meu percurso no Caminho de Santiago principalmente para ajudar aqueles que o farão pela primeira vez, a fim de não caírem em certos erros de principiante que podem comprometer a caminhada!

Acordamos “cedo”, dormi muito bem, costumo estranhar as camas... as almofadas... mas aqui não se passou nada disso, talvez o cansaço.
Depois do pequeno-almoço já perto das 8:00 horas, o que já era bastante tarde para um peregrino, mas a inexperiência tem destas coisas, o João começou com rodeios… até que me disse “Se eu desistir tu continuas?”, disse-lhe que continuaria mesmo sem ele, ele disse que estava com dores, então liguei para Braga para a Paula uma das “Bombeiras” de reserva para o vir buscar, foi melhor assim eu sabia que a etapa ia ser dura…
Junto à Ponte ele caminhou em direcção à Vila eu comecei a nova etapa…
Eram 9:20 já tinha andado cerca de 2Km e comecei a sentir algo estranho num pé, tirei a bota (que deveria ter um numero acima do habitual), era a primeira bolha mesmo na sola do pé!
Coloquei-lhe um adesivo!
Cada vez mais o sol estava mais forte e a serra da Labruja ainda estava longe, junto à capela da Sr.ª das Neves parei para beber, comprei agulhas e linhas para drenar as bolhas (já eram duas), comecei a aventura pela serra estava preocupado com a água mas isso não foi problema pois a serra brota água por todo o lado, cheguei perto ao Albergue de Ruviães 15:00 horas, já tinha bastantes dores nos pés, fui à Farmácia deram-me tiras de silicone para colocar sobre as bolhas e um gel frio para os pés.
Cheguei ao Albergue já lá estava muita malta que tinha visto em Ponte de Lima tratei os pés… estavam com mais bolhas, lavei furei e coloquei o silicone, enquanto ia sendo observado por um peregrino…
Quando ele me viu a colocar de novo a mochila nas costas, ficou admirado e disse-me “Vais seguir?” “tens os pés uma miséria devias ficar cá a descansar!”, mas como eu tinha os dias contados tinha que seguir até Valença… (outro erro).
Despedi-me dele (Pedro - do Porto) um iniciante do Caminho de Santiago, mas experiente em peregrinações a Fátima.
Comecei novamente a caminhar, com o passar do tempo os pés doíam mais… mas aguentava!
Cheguei a Valença às 22:20, muito tarde cansado… depois do duche tratei os pés estavam mal mas parece que aquelas tiras de silicone tinhas ajudado a não agravar as coisas, fui jantar, depois no jardim do Albergue de Valença deitei-me um pouco na relva, conheci o André que fazia o Caminho com o Pai e um Amigo, combinei sair de manhã cedo com eles, a próxima meta seria Redondela!
Comecei a caminhar ainda era escuro ao inicio sentia os pés a estalar era a pele que tinha secado durante a noite a descolar novamente, mas acompanhei sempre o ritmo deles que era bastante rápido (outro erro) ao atravessar a recta do parque industrial de Porriño sentia que algo não estava bem com os meus pés, mas não parei, uns km mais tarde troquei as botas por uns chinelos que não davam jeito nenhum para andar mas sentia-me mais aliviado, paramos para comer algo e quando tirei as meias… O André ficou impressionado, os dedos pequenos estavam com bolhas de Sangue, e a sola dos pés com bolhas de 7 cm.
Então a partir dai o André caminhou sempre ao meu lado mas mais calmamente fomos conversando como se nos conhecesse-mos há muito tempo, sobre o Caminho ele já era a segunda vez e lembro-me de uma frase que proferiu “A Glória de chegar a Santiago”.
Chegamos ao porriño eles seguiram para Redondela eu fiquei por ali foi um momento de despedida…
Caminhei até ao Albergue passo a passo muito lento e triste o Albergue ainda estava fechado, sentei-me num banco de Jardim, a pensar no que fazer… continuar? desistir?
O albergue abriu tratei dos pés estavam uma lástima muitas bolhas e muitas dores!
Liguei à Paula, contei-lhe como estava, perguntou-me se não era melhor ir ao meu encontro para me levar para casa, com as lágrimas nos olhos ainda hesitei mas algo me deu força para dizer que ia continuar!
Dormi um sono depois fui dar uma volta ao centro muito de vagar…
Pela primeira vez tinha chegado a uma povoação cedo o que deu para conhecer um pouco… (vantagens de começar a caminhar cedo e fazer etapas curtas)
Sentei-me numa esplanada a beber uma Mahou que é uma cerveja muito boa, em frente havia uma loja de chineses comprei umas palmilhas, fui para o albergue e cortei as palmilhas na zona das bolhas, tinha que arranjar uma engenhoca para caminhar no dia seguinte até Redondela.
Pela manhã ainda era escuro, comecei a preparar os pés para a nova caminhada… era a prova dos noves, se não aguentasse…
colei as palmilhas com os buracos à sola dos pés com adesivo e fiz o primeiro teste de facto assim a zona das bolhas não era pressionada, mas aquele aparato todo não cabia nas botas, fui de chinelos, muito calmamente cheguei a Redondela a meio da Tarde, foi duro… mas cheguei!
Ao chegar ao Albergue um edifício em pedra muito bonito, encontrei de novo o Pedro, ficou admirado pois pensou que eu já estava mais adiantado!
Perguntou-me logo pelos pés mostrei-lhe a minha engenhoca, os restantes peregrinos acharam engraçado aquela cena das palmilhas… um acto de muita vontade diziam.
Depois do duche e do tratamento aos pés fomos até uma esplanada beber umas “copas”,
o Pedro já tinha feito muitas amizades, os quais fiquei a conhecer, como o Nuno do Albergue de S. Pedro de Rates, e o Xesús Sota, um Galego montanhista.
Jantamos juntos, depois no albergue o Xesús Sota fez questão de me tratar dos pés esta cena foi filmada e esta no site oficial do Jacobeo 2010 http://www.youtube.com/watch?v=Sfigi7WjOYA
O homem era um génio, fiquei como novo, no outro dia caminhei até Pontevedra, saímos em grupo mas depois cada um ia ao seu ritmo, e é assim que tem que ser, dizia-me o Xesús Sota, fui o ultimo a chegar, fiz toda a caminhada com as botas calçadas o que estragou novamente os pés, tentei comprar umas sandálias (que já se deve levar de casa para ir alternando com as botas) mas era feriado e estava tudo fechado mesmo os hiper´s.
Quando cheguei sentia-me bem mas com o passar do tempo os pés ficaram inchados e muito doridos agora não eram só as bolhas, o Nuno ligou para a linha saúde eles disseram que me iam buscar de ambulância para me levar ao hospital, mas isso era o fim, e eu não quis…
Um ciclista de Guimarães que devia ser farmacêutico, pela quantidade de amostras de produtos que tinha, deu-me creme de massagem e “ ibopufeno” um anti-inflamatório.
Xesús Sota fez-me uma massagem com muita força, eram umas dores horríveis, mas ele dizia que tinha que ser assim!
Acordamos pelas 5:30 ele perguntou como estava custava um pouco a andar mandou-me caminhar pela relva molhada descalço, assim fiz foi uma sensação muito boa, “tu hoje vais caminhar amiguito” disse-me Xesús Sota.
Calcei as botas e segui, andei 1 Km e sentia que os pés não cabiam nas botas, fui a um chinês a única loja aberta em Pontevedra no dia da Virgem Peregrina, não tinha calçado, sentei-me num muro mais uma vez senti que não podia continuar, ia apreciando os outros peregrinos a seguir o seu caminho, até que peguei numa pequena faca e cortei a zona das botas que sentia estar a apertar, foi a melhor ideia que tive as bolhas não doíam muito, o anti-inflamatório tirou-me as dores nos pés, comecei a bom ritmo, uns km mais tarde estava a malta num café parado ficaram todos admirados com o meu ritmo e com a minha ideia, “eu bem digo que no caminho o Santo faz milagres” – dizia o Nuno um professor universitário, perguntei por Xesús Sota, queria agradecer o tratamento que ele me deu, disseram-me que ele tinha recebido uma chamada, e voltou ao Ferrol de comboio… fiquei triste nem me despedi dele, seguimos muito próximos uns dos outros até Caldas eu estava novo!
Ficaram todos lá eu mais uma vez teimoso e porque já ia faltar um dia ao trabalho segui até Padrão, cheguei às 23:30, muito cansado fisicamente mas os pés até estavam “bem”.
Fisicamente penso que foi a primeira vez na vida que levei o corpo aos limites, mas a vontade de no dia seguinte chegar a Santiago era como um analgésico muito forte!
O albergue já estava cheio, não aceitavam mais ninguém eu disse que já não aguentava mais e entrai tomei um duche e dormi no chão só com o saco cama… depois de tantos km foi uma cama confortável!
Ainda era noite estava a pé, os primeiros km foram duros, faltou o tratamento do Xesús Sota, e o incentivo de todos aqueles que tinha conhecido no caminho, mas agora faltava pouco, às 12:00 estava a chegar ao fim do caminho finalmente tinha a família à espera, quando entrei na Praça do Obradoiro senti “A Glória de Chegar a Santiago”.
Enviei uma mensagem de agradecimento ao Xesús Sota, sem ele talvez não conseguisse chegar, ele respondeu que tinha muito orgulho em ter conhecido um verdadeiro peregrino como eu, fiquei orgulhoso!
2010 é para voltar mas sem cometer os mesmos erros!
Assim podemos desfrutar mais daquilo que o caminho nos oferece!
- os pés e o calçado conselhos: http://www.osmeuscaminhos.com/
- começar a caminhar muito cedo por causa do calor
- treinar dois meses antes de iniciar a caminhada
- levar só o que faz mesmo falta
- não levar os dias contados
- fazer etapas curtas
- muita vontade

Acreditem que apesar dos “problemas”, foi a melhor experiencia que tive na vida!

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